MIT e mídia local mapearam mortes na fronteira dos EUA: como replicar método
O ponto central: usar a lei de acesso à informação a seu favor e a IA como ferramenta de processamento, não como substituta da apuração.

Mortes em regiões de divisas estaduais ou fronteiras nacionais costumam cair numa vala rasa sem cobertura midiática ou interesse público. São casos em que a burocracia dificulta também o trabalho dos órgãos oficiais de investigação. Esta semana, uma parceria entre o MIT Technology Review e o veículo de mídia local Times of San Diego lançou o resultado de um complexo trabalho de jornalismo de investigativo e de dados, tudo documentado para quem quiser fazer semelhante. O ponto central: usar a lei de acesso à informação a seu favor e a IA como ferramenta de processamento, não como substituta da apuração.
A série de reportagens se chama ‘Dying on Camera‘ e mostra como o governo do Estados Unidos gasta bilhões de dólares em “câmeras de vigilância com IA” que resultam em milhares de mortes de quem tenta atravessar a fronteira com o México.
O primeiro passo: pedidos de registros públicos direcionados
A investigação mirou em condados no Texas e policiamento local. Para cada um, a redação fez um pedido formal de registros públicos sobre as mortes. A lógica é simples, sem pedido protocolado, não há dados. E sem dados, não há matéria.
O que funcionou na prática: identificar os 18 condados prioritários e mapear quem era o responsável em cada um. Depois, redigir um pedido específico citando os dispositivos da lei de acesso à informação que se aplicam ao caso exato. O pedido genérico iria morrer na gaveta. O pedido que cita o dispositivo legal certo obriga o agente público a responder.
Quando o poder público cobra pelo dado
A redação enfrentou um obstáculo que é comum nos EUA: o condado de Maverick, por exemplo, cobrou uma taxa pelos registros que a equipe considerou proibitiva. Não é exceção, valores entre US$ 300 e US$ 1.300 apareceram em outras respostas. A estratégia que eles usaram para contornar o problema: argumentar com base na lei e priorizar outros condados ou buscar fontes alternativas para o mesmo dado.
O papel da IA: processar o que o olho humano não dá conta
A redação usou o modelo Claude da Anthropic via API para processar os relatórios de Kenedy, Webb e Hidalgo, três condados com grande volume de ocorrências. O motivo: são centenas de laudos e boletins que precisavam ser lidos, e a IA acelerou a triagem inicial.
Mas atenção: o processamento automático não foi o fim da linha. A equipe verificou manualmente lotes de casos para checar a precisão do que a IA extraiu. O algoritmo apontou candidatos a padrões; o jornalista humano confirmou cada um. Sem essa checagem, o dado processado por IA não passa de ruído.
A redação não divulgou o custo total da operação, mas o método documentado já permite que outras redações repliquem o trabalho sem partir do zero.
Jornalismo de dados no Brasil vs. Jornalismo de dados nos EUA
A metodologia aplicada na reportagem norte-americana é perfeitamente replicável no Brasil e toca no futuro do jornalismo investigativo: a união entre a Lei de Acesso à Informação (LAI) e o uso de inteligência artificial para processamento de dados em massa.
O que é mais fácil no Brasil
- Gratuidade dos dados digitais: O maior obstáculo financeiro citado na reportagem americana (taxas de até US$ 1.300 cobradas pelos condados) praticamente não existe aqui. A Lei 12.527/2011 (LAI) estabelece no Art. 12 que o serviço de busca e fornecimento da informação é gratuito, salvo custos de reprodução física (impressão, pen drive). Se o envio é digital, o poder público não pode cobrar.
- Centralização de plataformas: Enquanto nos EUA a equipe precisou mapear o responsável em cada um dos 18 condados, o Brasil possui o Fala.BR, que unifica os pedidos de informação para todo o Executivo Federal e é adotado por diversos estados e municípios. Isso padroniza o formato de envio e o acompanhamento de prazos.
- Prazos definidos em lei: A LAI brasileira é rigorosa quanto ao tempo: 20 dias, prorrogáveis por mais 10 mediante justificativa. Nos EUA, o FOIA (Freedom of Information Act) costuma sofrer com atrasos que duram meses ou até anos sem uma resposta conclusiva.
O que é mais difícil no Brasil
- A “desculpa” da LGPD: Órgãos públicos brasileiros têm usado frequentemente (e de forma equivocada) a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) como escudo para negar acesso a informações de claro interesse público, exigindo que o jornalista entre com sucessivos recursos até instâncias superiores (como a CGU) para liberar a base.
- Qualidade e padronização dos dados: Ao descer para a esfera municipal (especialmente em prefeituras menores ou secretarias estaduais de segurança pública), o “apagão de dados” é real. O que deveria ser uma planilha estruturada muitas vezes é entregue como um PDF de imagem escaneada de forma torta, relatórios preenchidos à mão ou sistemas fora do ar e até mesmo inexistentes.
- O “Sigilo Abusivo”: É comum que bases de dados sejam classificadas sumariamente como reservadas ou sigilosas para evitar desgaste político, forçando uma batalha jurídica para desclassificar o documento.
Passo a passo para replicar a investigação no Brasil
Para o jornalista no Brasil que quer reproduzir o método, o roteiro é o seguinte:
1. Mapeie as fontes prioritárias: identifique áreas que registram mais ocorrências no noticiário, possivelmente o acesso à informação acontece com mais facilidade.
2. Identifique o setor responsável de cada instituição e estruture o pedido com o formato de resposta desejável: o pedido de informação deve ser endereçado à autoridade certa, e não a um órgão de forma genérica. O mesmo vale para a resposta desejada, que se não for devidamente informada pode chegar de forma incompleta ou irrelevante.
3. Redija o pedido citando o dispositivo específico aplicável da lei de acesso à informação: sem o dispositivo legal, o pedido perde força.
4. Esteja preparado para protelações, negativas de dados e até cobrança de taxas: nem sempre os dados serão entregues, e muitas vezes não serão entregues no prazo obrigatório por lei. Em outros casos, pedidos de informações a uma Junta Comercial ou cartórios podem ter como resposta uma cobrança. Acompanhe os prazos e prepare-se para entrar com recursos.
5. Use IA para processar o volume bruto: a API do Claude (Anthropic) deu conta dos relatórios neste caso, mas NotebookLM e outras LLMs podem prover resultado similar. Esteja atento à capacidade de processar informação sem perda de contexto.
6. Verifique manualmente os resultados, a IA aponta o caminho; o jornalista confirma o fato. A revisão humana das informações é fundamental para evitar erros grosseiros que podem prejudicar o resultado final
Modelo para solicitação de informações via Lei de Acesso à Informação
Modelo de Requerimento – Lei de Acesso à Informação (LAI)
À(Ao) [NOME DO ÓRGÃO OU SECRETARIA DESTINATÁRIA]
A/C: [Cargo da autoridade competente, ex: Exmo. Secretário(a)]
Com base no artigo 5º, inciso XXXIII, da Constituição Federal, e nos artigos 10, 11 e 12 da Lei nº 12.527/2011 (Lei Geral de Acesso à Informação), venho respeitosamente solicitar o acesso às seguintes informações públicas referentes a [Tema geral do pedido, ex: arrecadação e dívidas ativas]:
1. Especificação do Pedido
Para o período de [Data ou período específico, ex: mês fechado de maio de 2023], solicito os seguintes dados separados e estruturados referentes a [Localidade/Município, ex: João Pessoa]:
- [Item 1]: (ex: Quantidade total de imóveis com dívidas de IPTU)
- [Item 2]: (ex: Valores das 5 maiores dívidas e os respectivos bairros onde estão os imóveis)
- [Item 3]: (ex: Os 10 bairros com maior número de imóveis com dívida)
- Adicione mais itens conforme necessário…
2. Formato de Entrega
Solicito que as informações sejam enviadas, preferencialmente, em formato digital e aberto (como planilhas em .CSV, .XLSX ou .ODS), visando facilitar o processamento e a análise dos dados.
3. Prazos Legais
Em cumprimento ao art. 11 da Lei nº 12.527/2011, o acesso às informações requisitadas deve ser imediato. Não sendo possível a resposta imediata, requeiro que os dados sejam fornecidos no prazo máximo de 20 (vinte) dias, contados a partir da data de protocolo deste requerimento junto a este órgão.
Nestes termos, peço deferimento.
[Sua Cidade – UF], [Data]
[Seu Nome Completo]
CPF: [Seu CPF]
E-mail: [Seu E-mail]
Telefone: [Seu Telefone]