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Lei de incentivo ao jornalismo profissional no Brasil? Califórnia cria crédito à imprensa por jornalista empregado

Califórnia aprovou crédito fiscal por jornalista empregado. Veja como redações brasileiras podem pressionar por modelo parecido no Brasil.

Redação de jornal vazia, com mesas cobertas de pilhas de papel e jornais, computadores e uma TV na parede

O governador da Califórnia, nos EUA, sancionou uma lei que cria crédito tributário para veículos de imprensa local com base no número de jornalistas empregados. A lei entra em vigor em 1º de janeiro de 2027, com créditos usufruídos a partir de 2028, e pode gerar até US$ 40 milhões por ano para as redações californianas, segundo o Nieman Lab.

O interessante não é a lei americana em si, e não vou me aprofundar nela. É o mecanismo: dinheiro público em forma de isenção tributária atrelado a emprego de jornalista profissional. O Brasil não tem nada parecido em vigor e a tendência é a ampliação dos “desertos de notícias” – regiões sem nenhuma imprensa local.

Não existe, até onde fui capaz de pesquisar, projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional ou em assembleia estadual brasileira que replique o modelo da lei californiana ou proponha incentivo público ao jornalismo, sem exigir moeda de troca ao governante da vez.

Como funciona o crédito tributário californiano

A lei AB 2222 dá créditos de US$ 20 mil por jornalista, para até cinco profissionais em tempo integral. A partir do sexto, o valor cai para US$ 15 mil por cabeça. Jornalistas de meio período geram US$ 7,5 mil, e novas contratações rendem US$ 15 mil.

A lógica é direta: contrata mais, recebe mais. Demite, recebe menos. Não emprega ninguém, não recebe nada.

O governador Gavin Newsom sancionou a lei com ressalva pública. Disse que a lei não estipula um teto e pode subsidiar fundos de investimento e bilionários que não precisam do benefício, mas optou por não vetar porque, na avaliação dele, os ganhos superam os problemas. Ele afirmou que espera que a legislatura e o próximo governador estreitem os critérios de elegibilidade.

O que o Brasil já tem?

Nada. Em níveis nacional, estadual e municipal há vários mecanismos de incentivo fiscal à cultura e ao audiovisual, mas nenhum deles está atrelado ao jornalismo, ainda que sigamos financiando o jornalismo por meio de verbas publicitárias de quem detém a caneta.

Existem, entretanto, discussões difusas. Propostas que tratam de apoio à imprensa aparecem em debates sobre transparência de verba publicitária pública e sobre remuneração de conteúdo por plataformas digitais.

Possível modelo de incentivo ao jornalismo no Brasil

O caminho é legislativo e começa antes do plenário. Quem propõe crédito tributário precisa de um parlamentar disposto a assinar o texto, e esse parlamentar precisa de justificativa técnica. É aí que redações e associações entram.

  1. Escolher a esfera. Crédito tributário federal exige projeto de lei no Congresso. Incentivo estadual pode sair por assembleia legislativa, com menos concorrência de pauta.
  2. Montar o dossiê. Reunir estatísticas do setor. Número de jornalistas empregados no estado ou no país, massa salarial e quantos veículos fecharam nos últimos anos. Sem dado, não há justificativa.
  3. Procurar a frente parlamentar. No Congresso, a via é a Frente Parlamentar em Defesa da Comunicação. Nos estados, a comissão de fiscalização tributária ou de cultura.
  4. Pedir reunião, não abaixo-assinado. Associação de imprensa marca audiência com o relator ou com o presidente da comissão. O texto precisa de um autor, não de apoio popular.
  5. Acompanhar o rito. Projeto de lei ordinária passa por comissões antes do plenário. Crédito tributário costuma exigir parecer da comissão de finanças e tributação.
  6. Registrar a proposta no sistema. Depois de protocolado, o projeto ganha número e passa a ser consultável no site da casa legislativa.

O prazo não é controlável por quem propõe. Projeto de lei ordinária pode levar anos entre protocolo e sanção, e depende de entrar na pauta do relator. Não há atalho.

O caminho é reduzir o escopo. Em vez de crédito tributário por jornalista empregado, no Brasil seria viável um incentivo limitado a veículos de pequeno porte, com teto de valor e critério de elegibilidade fechado. Foi exatamente o ajuste que o governador pediu na Califórnia: sem teto, o benefício escorre para quem não precisa.

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